
Abner é um humilde residente da cidade rural de Dogpatch[1]. Certo dia, enquanto fazia suas andanças pelas redondezas, entrou em uma pequena floresta e encontrou o rebanho de um animal bastante estranho, o Shmoo. Encantado pela sua aparência esquisita, decidiu levar um bom punhado deles para criar em sua fazenda. Com o passar do tempo, ele e sua família perceberam que o único desejo dos Shmoos é agradar os seres humanos, transformando-se em qualquer coisa material que estejam precisando. Por não conceberem a ideia de luxo, fornecem apenas as necessidades básicas da vida, ou seja, se alguém tem fome, um Shmoo pode rapidamente virar um prato de presunto com ovos, ou uma jarra de água gelada para quem tiver sede, mas jamais caviar ou champanhe. Além do mais, eles se multiplicam com tremenda velocidade, evitando qualquer forma de escassez. Muito contente, Abner logo compartilhou os Shmoos com todos os habitantes de sua pequena cidade e sem precisarem gastar um longo tempo para produzirem sua subsistência, os habitantes passaram a fazer melhor uso de suas habilidades e capacidades, alçando ao patamar de uma vida um pouco mais plena e satisfatória.
Em outro canto do país, um empresário inescrupuloso discutia com seu fiel gerente sobre um lugar nos Estados Unidos onde pudesse abrir sua nova fábrica e pagar um salário miserável aos trabalhadores. Descobriu que havia uma pequena cidade rural não muito longe, Dogpatch, cujos habitantes eram tão pobres que haveriam de aceitar trabalhar por qualquer valor, inclusive por quantas horas lhes fossem ordenadas. Empolgado com essa possibilidade de expandir seus lucros a níveis exorbitantes, ele entrou em sua limusine e partiu para o local. Ao chegar, viu um dos moradores caminhando sossegado pela calçada e quando lhe ofereceu a proposta, o cidadão respondeu, educadamente, que poderia muito bem aceitá-la, se não fossem os Shmoos. Intrigado, ele resolveu seguir em frente. Mais adiante, uma moradora também recusou, referindo-se aos Shmoos como motivo principal. “Mas o que diabos é um Shmoo?”, indagou o empresário. Eis que uma senhora se aproximou e explicou toda a situação: com os Shmoos ninguém mais era forçado a trabalhar para sobreviver. Os animais fazem tudo pelos seres humanos, tem-se comida e bebida à vontade e todos podem adquiri-los de graça!
O empresário entrou no carro e partiu para sua casa. “Comida para todos e de graça? Que desgraça!”, exclamou ele, furioso. Dois quilômetros à frente, seu motorista parou o carro e pediu demissão, pois havia pegado um punhado de Shmoos de uma das fazendas e não precisaria mais se sujeitar a trabalhar por um salário tão indigno. O empresário teve de dirigir o próprio carro de volta. À noite, ele ligou para sua amante para esquecer os problemas e ofereceu-lhe um belo jantar. Ela agradeceu e estava prestes a aceitar o convite quando a sua irmã lhe mostrou uns Shmoos, adquiridos de amigos e parentes; e sem a necessidade de prolongar a sua humilhação, ela bateu com força o telefone na cara do empresário e celebrou a sua liberdade com uma ceia simples, porém bastante farta.
Nas semanas seguintes, o empresário deu início a uma campanha nacional contra os Shmoos e sua “terrível ameaça”. A propaganda foi massiva e passou em todos os lugares. Não houve jornal, programa de rádio, televisão, revista ou sites da internet que tenha ficado de fora. A população, levada a crer que os animais prejudicavam a economia e instauravam um clima de caos e instabilidade política, posicionaram-se a favor da erradicação total dos Shmoos. Aqueles que tentavam promover uma defesa dos animais foram rapidamente marginalizados, silenciados, marcados e perseguidos como inimigos dos interesses universais da sociedade. O empresário comemorou com alegria a decisão e estava convicto de que ela era a melhor para todos; afinal, ele teria a nobre oportunidade de continuar oferecendo emprego para os desempregados (e tirá-los da miséria) e prosseguiria girando as engrenagens de seus negócios, totalmente desimpedido por quaisquer perigos.
Um dos pontos mais intrigantes dessa estória refere-se à propaganda conduzida pelo empresário a fim de destruir os animais mágicos. Então, como algo tão vivo, material, concreto e objetivo, cuja função é simplesmente melhorar a vida de todo mundo, pode ser transformado tão depressa em uma ameaça universal? Entre as possibilidades de resposta, esse capítulo busca discutir uma estratégia básica, sem a qual, indubitavelmente, essa condução da propaganda seria impossível. Em outras palavras, o empresário só poderia ser capaz de levar adiante sua campanha pela destruição dos Shmoos (e obter sucesso) se realizasse a inversão dos interesses, isto é, se conseguisse ocultar o fato de que seus interesses de capitalista são particulares e apresentá-los como interesses universais de toda a sociedade. E uma vez que os Shmoos são prejudiciais aos seus negócios, devem ser disseminados como uma ameaça a todos os cidadãos.
Para explicar esse fenômeno nem um pouco ficcional é necessário compreender a existência da profunda e antagônica perspectiva entre as classes na sociedade. Erik Olin Wright (2004) apóia-se em um egoísmo racional[2] e na consideração pelo próprio bem-estar material de ambas as partes para ilustrar como seus interesses se apresentam perante uma suposta distribuição de Shmoos pela sociedade, enumerando-os por ordem de preferência. Para os capitalistas, a primeira opção é que só eles obtenham os Shmoos, visto que, obviamente, ficariam em uma situação melhor com eles do que sem eles. Sua segunda opção é pela sua destruição (se não podem obtê-los, é melhor que ninguém os tenha). A terceira é que ambas as classes obtenham os animais e a última, que apenas os trabalhadores adquiram posse sobre eles. Para a classe trabalhadora, sua primeira opção é que todos tenham os Shmoos, pois além de terem suas necessidades básicas atendidas, os capitalistas teriam mais fundos disponíveis para investimento, podendo aumentar os salários para atrair os trabalhadores que desejarem complementar os ganhos. A segunda é que só os trabalhadores obtenham, a terceira que só os capitalistas os tenham e a sua alternativa menos preferida é que os Shmoos sejam destruídos (Wright, 2004).
Note que a opção da classe trabalhadora por destruí-los vem em último lugar, afinal, até mesmo a posse deles apenas pelos capitalistas significa muitos custos básicos reduzidos e, portanto, uma melhoria substantiva nas relações e condições de trabalho. Em vista disso, a ordem nas escolhas de ambas as classes permite enxergar, através de formulações lógico-argumentativas, o que se apresenta no horizonte social omitido pela sua mera aparência: “esta é uma forma de entender a ideia marxista clássica de que a classe trabalhadora é a classe universal, […] cujos interesses materiais específicos são equivalentes aos interesses da humanidade como tal” (Wright, 2004, p.8).
Na vida real, infelizmente, os Shmoos não existem. Porém, essas práticas anti-shmoosianas podem ser detectadas pela imposição de estratégias e medidas políticas que visam deslocar camponeses e trabalhadores de suas terras férteis ou produções manufatureiras para recrutá-los como força de trabalho assalariada, como na África do Sul, durante o século XIX, que retirou os camponeses de suas plantações de subsistência e forçou-os a trabalhar nas minas em troca de salário para poderem arcar com os altos impostos criados para este fim (Wright, 2004). A ideia-chave a ser retirada desse exemplo dos Shmoos, portanto, é a de que no capitalismo, a exploração e a privação da classe trabalhadora dos seus meios de subsistência e autonomia não são simplesmente um subproduto infeliz da busca pelo lucro, uma consequência inevitável; mas uma condição necessária para essa busca (Wright, 2004).
NOTAS:
[1] Essa estória pertence à série de quadrinhos Li’l Abner (Capp, 1992), citada por Erik Olin Wright (2004). Sua exibição aqui teve a adição de elementos extras, mas que não deformam o original.
[2] Ele organiza a ordem de preferência sem levar em conta os motivos altruístas ou rancorosos, partindo, portanto, de um egoísmo tipicamente observado na economia neoclássica (Wright, 2004).
WRIGHT, Erik Olin. Class counts. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2004.