As 1001 Noites e as Fábulas do Capitalismo

Há muitos anos, reinava na Pérsia um homem que tinha dois filhos, Shariar e Shazaman[1]. Certo dia, Shariar teve saudade de seu irmão e enviou seu vizir para convidá-lo a vir ao seu reino. No meio do caminho, Shazaman lembrou-se de um documento que gostaria de mostrar a Shariar e retornou para buscá-lo. Ao entrar de volta no palácio, encontrou sua mulher no leito imperial, deitada ao lado de um escravo. Sacou a espada, cortou as suas cabeças e retomou sua viagem. Chegando ao reino de Shariar, estava abatido. Ao ser indagado pelas causas da depressão, optou por não revelar. Para animá-lo, o rei organizou um safári e uma excursão de caça, mas Shazaman desculpou-se, ficando sozinho no palácio. No dia seguinte, da janela do quarto, ele contemplou vinte escravas e vinte escravos encontrando-se no jardim e espantou-se quando reconheceu a esposa do irmão no meio deles. Em dado momento, a rainha chamou para si um escravo, entregando-se a ele e deu sinal para que os outros se juntassem ao casal. Observando tudo com atenção, Shazaman pensou: “Por Alá, minha desgraça é menos pesada que a de meu irmão” e as mágoas em seus pensamentos foram dissipadas; ele não era o único a sofrer.

Quando Shariar regressou, alegrou-se em vê-lo melhor e quis saber a causa da mudança tão repentina. Sob pressão, o irmão confessou e Shariar revelou que gostaria de ver com os próprios olhos. Shazaman recomendou-o a proclamar que estaria viajando para um país longínquo para, depois, retornar em segredo. Assim, ele encarregou de anunciar a todos a sua ida em uma viagem demorada, preparou os soldados e partiu. Em seguida, disfarçado de mercador, voltou ao seu palácio e testemunhou o encontro carnal da rainha. Angustiado, o rei Shariar declarou que iria buscar outro destino pelo caminho de Alá, visto que ele e o irmão só poderiam retornar se localizassem homens mais desgraçados do que eles. Às pressas, ambos saíram do palácio, viajaram por muitos dias até chegarem a um prado à beira-mar e pararam para repousar. À tarde, uma coluna de fumaça negra ergueu-se do mar, transformando-se num gênio carregando um baú enquanto os dois irmãos corriam para se esconder no topo de uma árvore. Esta criatura, um Ifrit, sentou-se próximo a eles e, sem vê-los, abriu o cofre, revelando uma mulher de extraordinária beleza. Em seguida, ele fechou os olhos e caiu em sono profundo. Ao ver os dois reis, a mulher acenou-lhes para se aproximarem, dizendo para não terem medo. Os dois, temerosos por terem sido vistos, hesitaram, até que ela ameaçou acordá-lo se não atendessem o seu desejo de ser possuída. Sem saída, eles acataram a ordem. Após o ato, ela lhes mostrou um pequeno saco com noventa e oito anéis, explicou que eram jóias dadas a ela por homens com quem copulara e requisitou que cada um deles doasse mais uma peça para sua brilhante coleção. Então, ela revelou a sua triste história: o gênio havia raptado-a na noite de seu casamento e a aprisionara por ciúme, proibindo-a de ver outros homens. Por vingança, ela passou a se deitar com viajantes, satisfeita pela ignorância da criatura de que “quando uma mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la”, segundo as suas palavras.

Os irmãos se entreolharam e sentiram-se consolados, pois o gênio era mais desgraçado do que eles. Regressaram aos seus palácios e Shariar mandou cortar a cabeça da esposa e dos quarenta escravos. Nos dias seguintes, receoso da ideia de que ninguém pode conter as mulheres, ele decidiu casar-se com uma nova donzela a cada noite, matando-a na aurora para prevenir qualquer traição. Imposto o seu decreto, o reino encheu-se de tristeza e horror, com as famílias fugindo para salvar as suas filhas. Certo dia, o vizir, encarregado de encontrar as mulheres, procurou e retornou ao palácio de mãos vazias, desesperado com o que o rei poderia fazer com ele. Isto porque ele possuía duas filhas que excediam as demais moças do reino em beleza, educação, charme e inteligência. Sherazade, a mais velha, havia lido inúmeros livros, conhecia a história de todos os povos, dos reis e dos poetas antigos e modernos, era eloquente e sua voz, melodiosa e agradável. A princesa, vendo o seu pai infeliz, interveio: “Por Alá, pai, deve casar-me com o rei. Não importa que morra ou sobreviva, saberei livrar as filhas de todos os muçulmanos desta vil calamidade”. Sob protesto, o vizir atendeu ao pedido e levou-a ao rei.

No entanto, ela havia elaborado uma estratégia. Pedira à irmã Duniazade que antes de dormir lhe perguntasse se poderia contar uma de suas maravilhosas estórias, o que a irmã prontamente fez. No início, Shariar resmungou, mas acabou acatando na esperança de suavizar a sua habitual insônia. Sherazade falou com sua voz inebriante por toda a noite, trancando a atenção de Shariar e interrompendo no momento mais empolgante. O rei ordenou que ela continuasse, mas a princesa lhe lembrou de que os raios de sol irrompiam pela janela e a sua cabeça estava prestes a ser decepada. Curioso, Shariar suspendeu o carrasco naquela manhã e deitou-se para dormir. À noite, decretou que ela terminasse a estória e, quando isto foi feito, impôs que começasse outra. Então, noite após noite, Sherazade desfiou fantásticas fábulas de terror, piedade, amor e ódio, angústias, medos e paixões desenfreadas, de bons corações e intenções egoístas, de atitudes generosas e intenções cruéis, de vinganças, delicadezas e grosserias imensuráveis e personagens tão mágicos que eram capazes de atiçar até os mais desinteressados ouvintes.

Os dias se passaram, tornando-se meses e mesmo anos. Depois do conto de um famoso príncipe, Sherazade silenciou-se, deixando o rei pensativo. Então, ela se levantou, caminhou na sua direção, beijou a terra no chão à sua volta e lhe fez um gentil pedido: “Ó rei do tempo, inigualável na grandeza, eu sou tua escrava e te contei durante mil e uma noites histórias antigas da sabedoria de gerações. Ser-me-á permitido solicitar um favor de tua majestade?”. Shariar consentiu, ela pediu que trouxessem os três meninos e continuou: “Estes são teus filhos e o favor que peço é para que não me mandes matar para que eles não se tornem órfãos e sejam criados sem mãe”. O rei ficou comovido às lágrimas. Apertou seus filhos contra o coração e disse já ter lhe poupado a vida há muito tempo, pois jamais conseguiria viver sem ela. E prometeu que daquele dia em diante faria tudo para afastar dela qualquer mal e sofrimento. Ao ouvir isso, a princesa Sherazade beijou-lhe as mãos e os pés e a alegria ecoou por todo o palácio, transbordando para a cidade inteira.

Há algo de mágico na coleção de histórias e contos populares que integram o livro das Mil e Uma Noites. Além de seus ingredientes fantásticos, da narrativa inebriante, sua diversidade temática e os personagens tão bem construídos, talvez o elemento mais visceral da obra seja justamente a utilização das fábulas e os seus cortes estratégicos como uma questão de sobrevivência. A dinâmica dos contos e dos acontecimentos acaba tragando, não somente o rei, mas também os leitores, para dentro desses mundos fascinantes de sua narrativa. Este é o poder de suas ficções seriadas, desarmar a audiência e incitá-la à curiosidade a ponto de alterar decisões e decretos reais. Isto posto, considerando a obra por outro ângulo, um elemento de menor evidência é o poder da palavra de Sherazade e a sua enorme competência para persuadir e encarcerar a mente de seu receptor. O rei Shariar, completamente suspenso pela imposição de uma realidade habilmente produzida e transmitida, “esquecera-se” até de que tinha filhos crescidos, pois, durante aquele esplêndido período de noites iluminadas, a sua vida girou em torno das fábulas de sua rainha. Em face ao que foi exposto, fazendo uma analogia com a estória de Sherazade, pode-se interrogar: e se, no mundo contemporâneo, algumas narrativas estivessem perpetuando ideias para prevenir que as estruturas de poder sejam degoladas? E se as visões de mundo alicerçadas e reproduzidas pelo capitalismo estivessem elaborando suas fábulas, não por mil noites, mas ao longo de centenas de milhares delas para sustentar a sua existência em meio à distração do povo-rei?

Foi a partir destas duas simples perguntas que embarquei na minha árdua pesquisa de doutorado, a qual chego ao fim no mês que vem. Depois de vários compromissos, muitos semestres, numerosas leituras e abundantes trocas em sala de aula, além das incontáveis horas dedicadas à escrita da tese, chego ao fim com o sublime sentimento de um trabalho completo, realizado. Adorei participar dessa viagem de doutoramento e saio me sentindo muito melhor, uma pessoa mais humilde, mais perceptiva acerca da produção de conhecimento, mais paciente e com mais dúvidas a serem sanadas, possivelmente.

[1] Introdução livremente inspirada em duas obras que reeditam as narrativas das Mil e Uma Noites, cujas traduções são de Mamede Jarouche (2006) e Mansour Chalita (1999).

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