
O seriado O Caçador foi exibido na Rede Globo do dia 11 de abril a 11 de julho de 2014. Sua primeira temporada apresenta 14 episódios que contaram com os roteiros de Fernando Bonassi, Marçal Aquino, José Alvarenga Jr., Sergio Goldenberg, Ronaldo Santos, Victor Navas e Lucas Paraíso. A direção ficou por conta de José Alvarenga Jr. e Heitor Dhalia. A trama é sobre André Câmara (Cauã Reymond), um policial honesto e dedicado que integra a Divisão Antissequestros da Polícia Civil, cujo líder é o seu pai, Saulo Câmara (Jackson Antunes). Na comemoração da aposentadoria e do aniversário de Saulo, André revela que sua equipe achara o cativeiro do garoto sequestrado e iriam realizar a invasão naquela madrugada. A força policial entra na residência e descobre que a criança havia sido removida pouco antes, pois alguém da equipe vazara a informação. André descobre o envolvimento do pai entre os culpados. No dia seguinte, os policiais fazem uma batida em sua casa e coletam provas, entre elas, um celular plantado para incriminá-lo e André é levado preso para a delegacia. Saulo revela o motivo da traição, pois ele tinha somente mais seis meses de vida por conta de um câncer em estágio avançado. Em seguida, ele pede que seu filho se incrimine para salvá-lo da prisão e da desgraça, reconhecendo que as provas são frágeis e poderiam ser facilmente desmentidas. André aceita o sacrifício por amor ao seu pai que ainda lhe promete gravar um depoimento, confessando a participação no sequestro, para livrá-lo da pena. Pouco mais de três anos depois, André é liberado e inicia a busca das provas de sua inocência, quando o Delegado Lopes (Aílton Graça) o convida a ser um caçador de recompensas do submundo do crime[1].
Quanto à parte técnica, é mais um seriado que apresenta uma estética do cinema com muitas cenas envolvendo câmeras frenéticas, uma iluminação pesada e dura e momentos introvertidos, de um silêncio excruciante, que desvela o estado de espírito do protagonista. A cidade do Rio de Janeiro é retratada com elementos distantes de sua típica paisagem, dando lugar a becos escuros e noites sombrias. Uma vez que o protagonista desliza por ambientes do submundo do crime é de se esperar cenas que tiram o fôlego dos telespectadores e os deixam enclausurados em aposentos lúgubres, sem a menor noção do que poderá acontecer em seguida. Sobre o elenco, Alejandro Claveaux e Cleo Pires encarnaram seus personagens de maneira habilidosa. Cauã Reymond entregou uma performance acima da média, intercalando momentos cativantes, mas deixando a desejar em outros[2]. Talvez a maior qualidade do seriado seja a capacidade de mexer com o ânimo do público, entregando cenas recheadas de violência e situações de tirar o fôlego, sobretudo pelo excelente uso da trilha sonora, que cumpre o seu papel de imobilizá-los e torná-los indefesos em suas cadeiras.
O gênero do seriado é bastante conhecido do público e procurou manter os mesmos elementos clássicos. Em cada episódio, o Delegado Lopes apresenta um cliente interessado em contratar André para caçar pessoas desaparecidas, sejam elas do submundo do crime, da máfia ou apenas fugitivos de seus países por conta de envolvimentos ilícitos. Em paralelo, acompanhamos a busca do protagonista por respostas sobre seu passado e as pesadas investidas de Kátia Câmara (Cléo Pires), namorada de seu irmão, o Delegado Alexandre (Alejandro Claveaux), que se aproxima com segundas intenções, convertendo-se em objeto de seu desejo para alimentar a toxicidade da relação fraternal. No desfecho, André descobre que Marinalva, filha de Ribeiro, foi quem tivera a ideia de realizar o sequestro do filho de Paulo Sultão, o traficante mais perigoso do local[3]. Numa cena em que André está prestes a morrer queimado, o bandido recebe um telefone e descobre que o filho estava vivo. Com isso, ele é reintegrado à polícia, mas não antes de viajar ao Paraguai para matar o Ribeiro, descobrir que ele era seu verdadeiro pai e sua mãe revelar que encontrara o depoimento filmado de Saulo em uma caixa velha, livrando-o da culpa pelo sequestro.
A plasticidade com que é construída a estrutura dramática, torna exagerada a sua proposta e apresenta elementos que inviabilizam a trama. O maior exemplo é o de quando Saulo permitira que Ribeiro invadisse a residência de André para incriminá-lo. Na delegacia, ele buscou justificar o seu desesperado ato diante do filho, afirmando ter certeza de que ele iria denunciá-lo. Contudo, se ele o conhecia tão bem, como declarou, por que acreditar que seria mais complicado para o filho esconder a verdade de todo mundo e desistir da denúncia do que aceitar a prisão para ajudá-lo? Uma visita naquela manhã ao filho e fazer-lhe a mesma proposta não seria mais prático e menos danoso para ambos? Além disso, como integrantes da força policial, suas experiências não lhe renderiam o conhecimento de que um julgamento levaria mais de seis meses[4] (terminando após a morte de Saulo) ou que um depoimento gravado por um pai para salvar um filho seria de muito pouca utilidade perante um júri? E quando ficou combinado que ele iria se sacrificar pelo pai (que afirmou que as provas eram frágeis), os dois não poderiam planejar uma defesa mais contundente com a qual André pudesse manter a sua inocência e, após a morte do pai durante o julgamento, fosse inocentado? Essas são perguntas que permanecem sem resposta diante da sua baixa qualidade narrativa e dramática.
Não obstante, é válido comentar a relação de André com a sua família. Por conta de sua condenação, sua mãe e seu irmão nutrem um profundo sentimento de raiva e desprezo, optando por mantê-lo afastado de suas vidas. Em uma cena na clínica psiquiátrica, a mãe vê os dois filhos brigando e diz que “só tem uma coisa boa que você pode fazer pro que sobrou da nossa família, sumir de vez da nossa vida”, deixando-o furioso ao ir embora. Esta situação, embora sutil e sintomática das emoções que envolvem o trio, acaba eclipsando a incapacidade de André de perceber o óbvio: em seu leito de morte, Saulo não fora capaz nem de revelar sua inocência para a própria família. Como se descobre, mais tarde, que ele gravara o depoimento (aceitando a humilhação que eles teriam de enfrentar), por que ele iria manter essa informação escondida das pessoas que melhor poderiam ajudar André a se recuperar? Os motivos deste “deslize” não são explanados na estória, apesar de serem passíveis de crítica pelo descuido narrativo[5]. Afinal, a perda do apoio da mãe e o desprezo do irmão, mostrados como frutos diretos de sua condenação, são importantes forças paralelas de impulsão dramática que jamais existiriam em um universo condizente com o que deveriam ser as reais intenções de Saulo.
Quanto à visão geral, no que tange ao título, ele refere-se obviamente à atividade profissional de André como caçador de recompensas, embora também sugira que ele seja um caçador das provas de sua inocência. Embora a sucessão de eventos confusos e absurdos tenha apresentado dificuldades extras à análise, não houve uma crítica em nível sistêmico. O seriado observa o jogo capitalista de modo indireto, cujas regras desvelam-se pelas ações e intenções dos personagens, formando um submundo do crime desenfreado frente à impossibilidade estatal de cercear suas práticas e onde dois grupos principais, André, Lopes e seus aliados e os criminosos, se enfrentam para sobreviver. Dado que a realidade pintada é suja, imoral, pervertida e desonesta, André carrega a tocha que ilumina o caminho das jogadas: um ex-policial que, agindo praticamente sozinho, desfere duros golpes na criminalidade, encarnando quase uma força sobrenatural de combate ao crime. É neste eixo que estão posicionadas as principais questões a serem destrinchadas na análise. Por fim, as desigualdades sociais encontram-se latentes e são tratadas nas cenas como uma enfermidade ignorada por não haver uma cura.
De início, um fato chama bastante a atenção: na prática, André não é um caçador. Pela conjunção dos aspectos que constituem essa atividade, com certeza ela não envolve a captura de “presas” que surgem por livre e espontânea vontade diante dele ou por lhe serem entregues sem o mínimo esforço. Diante disso, pode-se dizer que a sua função primordial é pulverizada pela superficialidade com que são conduzidas as investigações. As pistas que ele seleciona para iniciar e guiar as suas buscas são intuitivas e óbvias, descaracterizando a suposta experiência que deveria ter (o modo como ele apura e orienta as suas “caçadas” não tem nada de especial e poderia ser facilmente realizado pelas mesmas pessoas que o estavam contratando). Além do mais, ele parece ter sido imbuído de uma “aura mágica”, cujo poder é o de fazê-lo obter informações instantaneamente e sem o dispêndio de quaisquer esforços investigativos, chegando ao nível de receber confissões de arrependimento ou culpa gratuitamente dos personagens em momentos destoantes de seus comportamentos e intenções.
Por outro lado, expressivas evidências permitem confirmar a sua condição de presa[6]. Após cumprir pena, André constata que não sabe ser um “fora da lei”, pois jamais aprendera a jogar pelas regras deste lado do tabuleiro e, no submundo do crime, aqueles que desconhecem ou ignoram as habilidades para a sua auto-sobrevivência se tornam, rapidamente, a presa de seus inimigos. Na abertura do seriado, ele chega a indagar: “como posso ser caçador e presa ao mesmo tempo?”. A pergunta serve como o prenúncio da complexa situação a ser encarada e é essa dupla alegoria que carrega as dimensões mais relevantes da reprodução ideológica no seriado: uma poderosa identificação moral que justifica suas atitudes ilícitas e a dualidade na posição de classe que existe entre as duas profissões ocupadas pelo protagonista durante momentos diferentes do seriado.
A primeira é a de consolidar em André uma imagem humana, de falhas e erros e suas possibilidades de correção, gerando uma identificação imediata com o seu comportamento, seus ideais e valores. Os freios morais que ele enfrenta após a prisão são frutos da criação dada por sua família e que vai se tornando dissonante em meio à sua nova atividade. Sua visão de mundo enquanto um bom policial que perseguia sequestradores estava dotada do ímpeto moral para melhorar o mundo e combater as pessoas más e criminosas. Todavia, quando aceita ser preso para não prejudicar o pai, ele falha em seu primeiro teste. O André que fora ensinado a agir sob rígidas regras de conduta e uma honestidade inabalável, de repente, se viu como cúmplice de um crime hediondo, fazendo com que a sua vida desmoronasse antes mesmo de ser condenado. Disso resulta o enorme vazio que embaralha suas definições do que é bom e/ou mal na existência humana, produzindo fortes efeitos depressivos. Um exemplo ocorre nas cenas em que ele defronta o irmão e este lhe aponta uma arma ameaçadoramente (por mais vezes do que seria plausível). Sem saída, André implora por um tiro de misericórdia, um tiro que possa tirá-lo de uma situação quase trágica e da qual não sabe escapar.
Esses efeitos vão se aprofundando a cada episódio, escancarando os traços de sua conturbada consciência, conforme André adquire clientes mais perigosos[7]. Sendo quase impossível manter-se inocente numa atividade profissional que exige uma completa imersão em um território repleto de criminosos, o seriado precisava minimizar ou justificar as situações em que ele comete inúmeros delitos penais, seja ocultando suas ações criminosas ou amparando-as como “legítima defesa”. Entre as principais, estão a morte do guarda-costas de Manuel Benítez, o mesmo que havia matado o delegado Lopes; os dois policiais na moto que aguardavam sua chegada e começaram a atirar na sua direção; a morte do alemão nazista em que ele foi cúmplice; e a morte dos dois funcionários da clínica psiquiátrica[8], entre outras infrações. Para o telespectador, pode ser fácil compreender as suas razões e justificar sua conduta criminosa em prol de limpar o seu nome. Inclusive, como vítima do embaralhamento moral sofrido, André não se enxerga como um criminoso, sobretudo porque seus crimes revestem-se de uma aura que exclui sua culpabilidade em âmbito moral, algo explorado pela equipe de roteiristas. Com isso, ele julga estar fazendo o correto na trajetória rumo à sua inocência, malgrado seja um correto obtuso e deformado, responsável por corroer o seu caráter e suas noções éticas. O resultado foi um acúmulo de crimes para seu manchado histórico de antecedentes criminais. E o quadro fica ainda mais complicado quando se sabe que ele tem intenção de retornar à polícia. Assim, é possível indagar novamente: qual a finalidade de cumprir os seus objetivos e restaurar sua inocência no caso do sequestro, mas retornar à prisão por conta de novas infrações penais? Que motivos iriam levá-lo a sair da imundície, sujando-se ainda mais?
Por este ângulo, apenas uma causa surge como a principal: a sua pena de prisão de mais de três anos. Longe de esbarrar no horizonte do senso comum para reiterar os argumentos óbvios de que a vida no cárcere é transformadora e gera estigmas para aqueles que a enfrentaram (talvez incuráveis), o ponto nevrálgico é que a sua prisão decreta um corte vertical na sua vida e desvela traços preciosos acerca das suas posições de classe, mascarando uma visão sobre o Estado através da dupla imagem do “caçador e presa”. Quando era parte da força policial, André revelava uma educação simples, era trabalhador e honesto, muito por conta de seu pai, um delegado da divisão anti-sequestro e de passado “ilibado” (segundo a sua própria perspectiva[9]). De repente, ele testemunha o que uma corrupção endêmica é capaz de destruir, pois mesmo tendo sido diagnosticado com câncer, uma vida toda com dignidade e integridade não fora suficiente para que Saulo rejeitasse o convite de Ribeiro para participar do crime hediondo de sequestro de uma criança (o mesmo crime que ambos investiram a carreira toda para combater). Ademais, a facilidade com que alguns personagens aparentemente bons tomam decisões de extrema gravidade moral chega a ser perturbadora, sugerindo, em um quadro mais geral, que a honestidade não compensa num sistema decrépito de regras corruptas e indivíduos egoístas.
Outros policiais legitimam esse quadro pessimista, representado pela força policial como uma instituição em plena decadência e cuja ineficácia é exacerbada. A própria rapidez com que Ribeiro consegue se tornar um criminoso de gigantes proporções no Paraguai, odiado até por outros criminosos de lá, é um indicativo da linha tênue que o seriado posiciona para separar o Estado da prática criminal. Seu irmão, o delegado Alexandre, construído para carregar algum ideal mínimo de honestidade e consciência, ainda assim é retratado como um policial totalmente inexperiente e despreparado psicologicamente para o cargo. Até o delegado Lopes expressa uma imoralidade em múltiplas situações ao lidar com as pessoas caçadas. No entanto, o episódio em que isso fica mais descarado é quando André está num restaurante e o local é invadido por bandidos que prendem as pessoas na cozinha enquanto aguardam a chegada do “patrão”. Mesmo com barulho de tiros, eles não precisam se preocupar, pois “sabem” que não há policiamento algum nesta cidade do seriado para detê-los ou incomodá-los. Inclusive, o traficante Paulo Sultão[10], o chefe da quadrilha, nem se prontificou a estar lá no momento da invasão, e chegou atrasado, confirmando a visão pessimista. Dentro desta paisagem caótica, não há como deixar de perceber dois mecanismos de sujeição e obediência: a resignação, na forma da escuridão que obscurece quaisquer resquícios positivos e reproduz as impossibilidades de mudança diante de um sistema descontrolado; e o medo, reforçado pelas constantes visões de criminosos agindo de modo desenfreado e sem preocupações e ainda enfrentando policiais ineptos e corruptos.
Nesse sentido, o suposto enaltecimento do Estado (e do sistema jurídico e penal), quando a sentença de André foi resolvida “em menos de seis meses”, deve ser examinado com bastante precaução, descartando-se a exposição implausível e negligente de sua efetividade. Principalmente, porque esta situação específica não condiz com o restante das representações negativas da instituição estatal. Por um salário baixo da polícia, os agentes são retratados à beira de se transformar no que devem combater e isto quando não são totalmente inexperientes e incompetentes. Em compensação, quando André deixa a prisão e passa a atuar por conta própria e dependendo apenas de si mesmo, uma significativa transformação opera em sua consciência. Ele se torna uma espécie de símbolo da energia e do vigor individual, uma entidade que ilumina as características positivas da ação individual frente às coletivas. Ao adquirir a “independência” quando se converte em um caçador livre das amarras estatais, ele se torna competente, eficaz e preciso em suas maneiras de combater o crime, um empreendedor nato do ramo de caçadas humanas. Portanto, não é à toa que o personagem adquire a habilidade “mágica” para resolver todos os problemas que o Estado é supostamente incapaz: com uma mão, ele solidifica a insuficiência do poder público, criticando as regras que sustentam as suas práticas e, com a outra, reitera as qualidades individuais da sua nova visão de mundo.
Por fim, é interessante notar os possíveis motivos que levaram o seriado a descartar a sua culpa nos crimes cometidos. Tendo sido perdoado antes mesmo de saber que o depoimento de Saulo existia, ele conseguiu “provar” sua inocência por ter apenas entregue o filho de volta ao traficante, ou seja, sem interposição alguma de meios legais responsáveis por isso. Além do mais, o Estado seria talvez o seu maior aliado na caçada pelas provas de sua inocência, mas em momento algum ele pareceu interessado nessa ajuda. Pelo contrário, os crimes cometidos foram todos anulados por incompetência da máquina estatal e suas instituições retratadas como ineptas para lidar com a criminalidade. Essa questão transborda e atinge também Marinalva, que foi salva da morte no último minuto e escapou para se esconder na igreja[11] sem ser jamais investigada por ter sido a mandante decisiva do sequestro.
Para concluir, o seriado apresentou uma trama com boas doses de ação e intrigas. Sob o pano de fundo de um protagonista carismático que se tornou um caçador de recompensas depois de ser preso no lugar do pai e de querer buscar sua inocência a qualquer custo, a sua narrativa pode ser considerada interessante se forem suspensos muitos dos absurdos que ocorrem e da evidente inviabilização da estrutura dramática. Em relação à análise, ao ser imbuído de uma falsa destreza e uma infalibilidade incoerentes com a sua construção, André é retratado como um símbolo de oposição ao poder público, ao mesmo tempo que em nível situacional, reforça, através das caçadas facilmente resolvidas, a superioridade e eficiência das ações individuais no combate ao crime. Em outras palavras, sem uma crítica direta ao jogo capitalista, o seriado expõe as mazelas da nossa sociedade como as regras institucionalizadas de um sistema decadente e corrupto, construindo um quadro de profundo pessimismo acerca do Estado e da força policial, retratados como sujos e incompetentes. No final, André é mostrado num carro de polícia, fardado e pronto para mais uma missão. Se antes ele era inocente e fora condenado, desta vez, ele fora absolvido em meio a inúmeros crimes. Seria esta cena uma manifestação de sua vontade implacável de melhorar o mundo ou a alegoria de sua vitória frente à decadência do sistema? Se houvesse a segunda temporada, certamente, o público estaria ávido em saber qual André estaria no comando das suas ações.
[1] A trama e as curiosidades estão no Memória Globo, disponível em: http://glo.bo/3SlyEmJ.
[2] Um dos maiores exemplos é no episódio 12, quando André está prestes a entrar na pilha de pneus para ser queimado vivo, no famoso “micro-ondas”, e seu comportamento é apático, como se fosse um mero inconveniente, apesar de estar contemplando a possibilidade da morte.
[3] Para incrementar, Marinalva era dançarina de uma casa noturna quando conheceu Paulo Sultão. Mais tarde, ao descobrir que ele teria uma filha com sua esposa (ele lhe prometera que viveriam juntos), sentiu-se traída e o expulsou de sua vida. Porém, por vingança, revelou seu plano de sequestrar o filho dele para Ribeiro, que depois chamou Saulo para fazer parte. O resgate foi pago e a criança dada a ela, mas em vez de devolvê-la ao traficante, entregou a um matador.
[4] No final, descobre-se que Saulo jamais recebera a sua parte do dinheiro do sequestro. Como a sua morte deveria ocorrer durante o julgamento e, sabendo pela gravação que deixara que essas eram as suas intenções, não seria o caso de ele dar um último depoimento no tribunal, ao vivo ou gravado, antes de falecer? E caso ele jamais tivesse tido a intenção de fazer isso, algo que não foi considerado pelo seriado, uma vez que não recebeu o dinheiro, não poderia usar toda a sua força e influência na polícia para salvar o filho da condenação?
[5] Em momento algum ficou esclarecido que Saulo possuía algum sentimento de vingança ou de tentar prejudicar a vida do “filho”. Pelo contrário, a mãe de André revela que seu pai amava-o mais do que a seu irmão e o depoimento final confirma os seus sentimentos. Além disso, por que ele iria gravar o depoimento e não revelar à família ou colocar uma prova tão importante em uma caixa de sapato velha sem comunicar a ninguém?
[6] Seu papel de presa é reforçado pelos incontáveis momentos em que ele é capturado de surpresa, seja onde estiver e apesar de estar sempre às escondidas, vivendo uma vida de foragido: quando ele é metralhado no ponto de ônibus, assim que deixa a penitenciária; quando invade a antiga casa de Ribeiro e, coincidentemente, dois bandidos de Paulo Sultão esperavam por ele; dois policiais em uma moto sabiam a hora e local onde ele estaria para tentarem metralhá-lo; ao dirigir seu carro por uma rua qualquer, ele cai na armadilha dos bandidos e troca tiros; Paulo Sultão sabia a hora exata e a rua em que ele iria passar dirigindo e usa um de seus carros para provocar um acidente e ameaçá-lo de morte; quando André está indo visitar a igreja evangélica, ele leva uma coronhada de um policial a mando de seu irmão e desmaia; após visitar a casa do chinês que o contratou, André leva uma pancada na cabeça, desmaia, e vira prisioneiro da máfia chinesa; os bandidos de Paulo Sultão sabem o restaurante exato em que André irá almoçar para poderem capturá-lo; entre outros.
[7] Sem adentrar a questão de julgar o nível de periculosidade de cada contrato realizado, o que seria impossível mensurar, ao menos, pode-se basear que no começo, ele enfrentava indivíduos isolados, cujas ações não interferiam em problemas de maior escala; porém, mais para o final, ele passa a lidar com indivíduos perigosos, escudados por redes criminosas, como no caso dos dois bicheiros, no da máfia chinesa no RJ e no do Ribeiro como chefão do tráfico no Paraguai.
[8] O seriado não deixa evidente que os dois funcionários da clínica estivessem mortos, mas isso não retira a culpabilidade por outros crimes, pois visivelmente ensaguentados, eles foram vítimas de um ataque. Além disso, há muitos exemplos de pessoas que morreram por um envolvimento direto ou indireto com André em diversos episódios.
[9] Assim como André não acredita ter se tornado um criminoso, quando seu pai afirma que sempre fora honesto, é bem provável que sua consciência estivesse desalinhada com esta fala, até pelo fato de ter aceitado participar do sequestro de uma criança, uma decisão complexa e bastante sádica de ser tomada por alguém que viveu a vida inteira neste meio com uma “moral inabalável”.
[10] Pelo conjunto das ações desencadeadas, é evidente que a espera dos bandidos pelo seu chefe foi algo programado. Depois de colocarem as pessoas na cozinha, eles se sentam para comer e beber chope, como se tivessem todo o tempo do mundo. O único celular que eles apreendem é o de Taís (Bárbara Paz), ou seja, os outros tinham seus meios de se comunicar com o mundo lá fora. Uma operação desta espécie deveria ocorrer na maior rapidez possível, com Paulo Sultão, obviamente, encontrando os bandidos antes da invasão. Assim, se a sequência foi construída para visar efeitos dramáticos e gerar tensão, ela peca pela profunda perda do senso de realidade.
[11] Um assunto paralelo, mas que convém enfatizar, é quando André visita Marinalva na igreja e seu marido, o pastor (Bukassa Kabengele), revela que no passado era uma travesti conhecida como Jane (enquanto mostra as marcas de bisturi que removeram as próteses dos peitos) e, segundo suas palavras, “até que o Senhor me convocou para servir ao seu exército”. Sem relação dramática alguma com a trama e, portanto, gratuita, é bastante lamentável observar um personagem sugerir que a identidade de gênero das travestis seria uma espécie de “doença” ou “perversão” passível de cura pelo discurso religioso.