
“Gosto de Cereja” (1997) é um filme iraniano do diretor Abbas Kiarostami que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes do mesmo ano. Recheado de simbolismos, o filme é uma obra-prima que trata de um homem à beira de cometer suicídio. O diretor nos pega pela mão e nos faz seguir o protagonista ao longo da história, acompanhando seu drama particular pelas ruas e estradas de Teerã, enquanto procura algum indivíduo que aceite enterrá-lo. Por ser um filme reflexivo, Kiarostami deseja que pensemos acerca dos acontecimentos da vida, das nossas trajetórias, das coisas que construímos ou deixamos de realizar.
A história é sobre Badii, um homem de aproximadamente cinquenta anos, amargurado, infeliz, que dirige pela sua cidade em busca de seu objetivo. Contudo, só percebemos suas reais intenções no meio da conversa com um garoto do Curdistão. A falta que sentimos dos motivos do personagem para cometer esse terrível ato é proposital, pois assim suspendemos quaisquer juízos de valor em relação ao personagem. E uma vez sem esse julgamento, isto é, sem os indícios morais necessários para definirmos (ou criticarmos) suas atitudes, somos obrigados a prestar atenção em outros detalhes. Logo, é neste ponto que o filme se debruça com inigualável destreza e maestria.
O protagonista começa dirigindo por uma região árida, onde vemos uma espécie de atividade mineradora ou de construção e aborda homens que estejam preferencialmente sozinhos. No total, Badii convida seis homens. O primeiro é um cidadão agressivo que nem o escuta direito e já pede que se retire. Depois, ele encontra um rapaz que junta garrafas plásticas. Em um rápido diálogo, percebemos que o homem é bastante simples e não consegue entender nem as perguntas mais básicas. O terceiro é um jovem garoto do Curdistão, que aceita sua carona e entra no carro. Badii puxa conversa, inicialmente falando sobre assuntos corriqueiros, e vai conhecendo melhor seu possível ajudante. Por ser jovem, vemos que o garoto começa a se incomodar e se amedrontar quando Badii diz que irá levá-lo a outro lugar. Eles saltam na construção e, neste momento, Badii explica sua intenção: no dia seguinte, às seis da manhã, o jovem soldado deverá aparecer no buraco combinado e chamar por seu nome. Se ouvir uma resposta, deve ajudá-lo a sair, se não ouvir nada, deve cobri-lo com vinte pás de terra, entrar no carro, pegar o dinheiro e seguir com a vida. “Vinte pás de terra e duzentos mil tomans (dinheiro). Dez mil tomans para cada pá”, repete Badii, na esperança de convencê-lo. O garoto continua visivelmente incomodado com o pedido e a pressão vai aumentando tanto que num ato desesperado, ele abre a porta do Range Rover de Badii e sai correndo.
O quarto, um vigia afegão, recusa o convite enquanto prepara seu omelete. O quinto, amigo do anterior, aceita e entra no carro. No caminho, eles discutem assuntos importantes. Neste personagem, o seminarista, observamos a presença da religião para a sociedade iraniana. O tema da conversa gira em torno do suicídio e de como tirar a própria vida é errado em qualquer religião, pois Deus dá o corpo para o homem viver, e assim, se matar seria o mesmo que assassinar um semelhante. Aparentemente decidido a levar sua missão até o fim, Badii contra-argumenta, diz ser responsável por causar infelicidade e sofrimento nos outros, e isso já seria um pecado de igual peso. Mais adiante, o seminarista recusa a oferta por ela ir contra às leis do Corão.
O sexto, chamado Sr. Bagheri, um taxidermista, é quem aceitará o pedido de Badii. Intencionalmente ou não, o Sr. Bagheri aceita apenas por motivos drásticos na família. Seu filho, muito doente, precisa urgentemente de cuidados médicos. Isso nos leva a questionar se o personagem capaz de aceitar tamanha atrocidade não fora imbuído de uma razão plausível apenas para também manter distantes quaisquer possibilidades de um julgamento moral. Neste ínterim, o Sr. Bagheri conta de quando brigou com a esposa e levou uma corda para se enforcar numa árvore. Ele estava decidido e tentou duas vezes, mas sem sucesso. Então, resolveu subir na árvore e comer uma fruta. Ao apreciar o sabor, provou outra e depois outra. Aos poucos, foi se sentindo mais feliz e até chegou a levar uma cesta delas pra casa. As frutas, ou melhor, o sabor delas, foram responsáveis por impedi-lo de se matar. Nesta hora, o Sr. Bagheri conta uma piada que possivelmente elucida simbolicamente o filme. E apesar do momento de humor e descontração parecer fora de hora, a piada simboliza que o problema de Badii seja talvez uma perspectiva errada sobre a vida. “Não seriam os lugares (as coisas) em que ele toca que estariam doloridos (errados), mas sim ele mesmo”, e se fosse capaz de mudar isso, certamente encontraria sua felicidade.
Há algo de curioso na seleção desses personagens. Os três que realizam um diálogo com o protagonista, carregam simultaneamente, informações poderosas. O primeiro é um jovem, o segundo é adulto e o terceiro, um velho – as fases da vida que todos temos de enfrentar. O garoto é soldado, o homem é seminarista e o Sr. Bagheri, um taxidermista, isto é, os três representam signos que rondam a existência dos seres humanos no mundo moderno: o instinto agressivo, impulsivo e destruidor (pulsão de morte?) mais vivo nos jovens; a religião e a fé dos indivíduos, o amor incondicional ao próximo, a esperança; e as habilidades, a técnica, a vontade de construir e manter coisas belas, e deixá-las para a posterioridade. Postos nessa ordem, como foram apresentados, podemos inferir que Kiarostami pretendeu traçar a evolução de Badii à luz de uma segunda rápida existência, da qual ele poderia sair renovado. Desse modo, se estava prestes a encerrar sua vida, Badii ganhou pelo menos a oportunidade de nascer, crescer e amadurecer novamente através de um processo de auto-reconhecimento.
Há outros fortes simbolismos no filme, como o momento logo após o garoto ter fugido. Badii, de repente, vê seu carro atolar num buraco. O pneu dianteiro fica preso numa depressão da estrada, apesar de suas tentativas de acelerar o carro. Numa questão de segundos, várias pessoas se aproximam, agarram o veículo e levantam-no para tentar desatolá-lo. Badii agradece e elas saem satisfeitas. A dificuldade de encontrar alguém para encerrar a vida é contraposta à extrema facilidade com que ele conseguiu ajuda para continuar seu caminho. Como se Kiarostami quisesse nos dizer que, às vezes, tudo que precisamos para continuar vivendo é de um pequeno “empurrão”. Tenho de citar também a mudança nas cores do ambiente quando Badii fecha acordo com o Sr. Bagheri. Até então, víamos o terreno árido, terroso, cores pesadas; depois, ele passou a dirigir por bonitas árvores verdes e vermelhas, jardins maravilhosos, crianças correndo alegres, etc. Seria uma representação de seu estado de espírito? Talvez Badii estivesse começando a ver um pouco as cores do mundo, perceber sua beleza natural, o amor e a alegria nos detalhes.
Mais tarde, Badii pára o carro em frente ao trabalho de Sr. Bagheri, que ainda recusa a levar uma parte do dinheiro, demonstrando integridade mesmo em meio a uma situação bastante difícil de sua vida. Assim que ele o deixa, ele acelera o carro, provavelmente dá uma volta no quarteirão e retorna depressa em busca do velho. Não ficamos sabendo o motivo que o levou a voltar, apenas que ele parece ter se arrependido. Então, tendo ouvido a confirmação de que o outro manteria sua parte do acordo, Badii se retira para um banco a fim de testemunhar o pôr do sol, provavelmente o seu último. Ele entra na sua casa já de noite, faz algumas coisas e apaga a luz. Depois, pega o carro e vai para o local combinado, onde se deita para esperar a morte. O tempo muda, começa a chover torrencialmente e o filme termina.
Poucos segundos depois, vemos uma cena do diretor e o ator que interpreta Badii conversando. Os soldados militares estão rindo e seguram flores nas mãos. Kiarostami não nos delicia com um final concreto, definido; pelo contrário, ele deixa sua estória em aberto, assim como são as nossas vidas. Se o enredo tinha pontas soltas para serem resolvidas, o diretor as embaralhou e criou outras novas. O resultado disso são mais perguntas do que respostas, pois assim é o caminho que todos nós devemos percorrer. Este pedaço de filme exibido no final nos impõe uma reflexão impactante e profunda sobre o que é existir, desvela nossas incertezas, impotências e incapacidades. Ademais, como não temos controle total sobre a vida, ou talvez nem sequer o tenhamos, o diretor espera que os espectadores completem sua estória por si mesmos, desanuviando-se das preocupações e aprendendo a enxergar o belo e o delicioso nos pequenos gestos (e sabores).
(Análise escrita durante a Graduação em Cinema)