
Kids é um filme norte-americano de drama, dirigido por Larry Clark e escrito por Harmony Korine, lançado em Janeiro de 1995 no Sundance Film Festival. As produtoras são a Shining Excalibur Filmes, a Independent Pictures e a Guys Upstairs. Com um orçamento estimado em 1,5 milhões de dólares, o filme gerou uma bilheteria de mais de 7 milhões de dólares nos EUA e 20 milhões em todo o mundo[1]. Na comemoração de seu 20º aniversário[2], tanto o escritor quanto o ator principal Leo Fitzpatrick se lembram do apelido do filme na época – “um alerta para o mundo moderno”. Sua recepção por parte da audiência estadunidense foi bastante conturbada. As críticas parecem ter se debruçado superficialmente sobre o filme, quando, na verdade, deveriam ter recaído sobre a própria sociedade, evidenciada pelo filme ao tentar se corrigir o desfoque entre realidade e ficção. Naquele ano, o Washington Post[3] escreveu uma crítica, na qual o longa seria “virtualmente uma pornografia infantil disfarçada como um documentário de advertência”. A autora do texto, Rita Kempley, aterrorizada por adentrar o mundo dessa subcultura e testemunhá-lo de forma tão fria e assustadoramente natural, afirma ainda que “com exceção dos pedófilos, é difícil imaginar quem será atraído por esse irresponsável filme”. Se houve ou não uma correlação, infelizmente Fitzpatrick, logo após o lançamento, teve que se mudar para Londres para escapar da ira das pessoas que o julgaram como um documentário.
A trama se resume a um dia na vida de um grupo de adolescentes que transitam pela cidade de Nova York andando de skate, bebendo, fumando, fazendo sexo e, no caso do protagonista, deflorando virgens menores de idade. Logo na primeira cena, Telly (Leo Fitzpatrick), 16 anos, está aos beijos com uma garota de 12 anos (Sarah Henderson) e tenta convencê-la a fazer sexo com juras de amor e comprometimento com a relação. Ela acaba se convencendo e cede ao momento. Depois, ele escapa às pressas da casa e se encontra com seu amigo Casper (Justin Pierce), vangloriando-se de sua capacidade superior e se autoproclamando um “Cirurgião de Virgens” (em inglês, a expressão virgin surgeon, produz uma rima impactante). Caminhando pela cidade, aparentemente sem nada para fazer, eles entram numa loja, roubam uma garrafa de bebida alcoólica e partem para a casa de um amigo mais velho, onde vários outros estão fumando e se drogando. Nesse momento, o filme corta para um quarto com várias garotas conversando sobre suas experiências sexuais. Assim, através de uma sequência de planos entrecortados, ora no quarto feminino, ora no masculino, somos postos diante de conversas que expressam as visões dos gêneros quanto à atividade sexual, algumas de extrema perversão.
Mais tarde, duas dessas garotas, Ruby (Rosario Dawson) e Jenny (Chloe Sevigny) vão fazer o teste de HIV juntas. Jenny recebe a notícia do teste positivo, e como só havia tido relação com Telly, parte em busca do rapaz, passando por todos os lugares característicos que ele costuma frequentar. Enquanto isso, os dois jovens garotos compram maconha no parque e se reúnem aos amigos para andar de skate e “não fazer nada”. Durante a diversão, Casper tem que se desviar de um homem que havia cruzado seu caminho e o xinga. O homem se incomoda e, apesar de Casper tentar ignorar a situação, ele continua a encará-lo, até que Casper pega seu skate e o agride. Seus amigos correm para ajudá-lo na briga e dão chutes e golpes violentos em sua cabeça, deixando-o inconsciente no chão. Uma parte do grupo segue para a casa de Diane (Priscilla Forsyth), pois Telly deseja convidá-la para tomar banho de piscina noturno e investir em outra virgem. Eles cruzam a cidade, invadem um terreno com uma piscina e pulam trajando apenas as roupas de baixo. Durante a diversão, o papo se resume apenas a sexo.
Paralelamente, Jenny chega a uma casa noturna e entra sem enfrentar fila (ela é reconhecida por um rapaz). Em meio à sua busca, um amigo lhe dá um comprimido de droga, mas ela não se sente apta à diversão depois da terrível notícia e, por isso, fica sentada no canto da boate. Da piscina, o grupo parte para a casa de um amigo onde acontece uma festa regada a drogas e muito álcool. Os adolescentes se beijam, fumam grandes quantidades de maconha, bebem até vomitar e, em todo momento, o tópico de suas conversas é incessantemente o sexo e a preocupação pela perda da virgindade. Como se ela representasse um bloco de concreto imenso sobre suas costas, impedindo-os de serem verdadeiramente homens. Quando Jenny chega na casa, segue para o quarto e vê Telly com Diane na cama. Ela desiste de interferir, senta no sofá e adormece. No final, com todos desmaiados, Casper se levanta da banheira, vai à cozinha beber as sobras, vê Jenny no sofá e a estupra durante seu sono. As palavras finais de Casper dão o tom da juventude com acordes sombrios e uma harmonia desafinada: “Jesus Cristo, o que aconteceu?”.
Para um trabalho inicial de análise, primeiramente, gostaria de introduzir alguns fatores diretos e indiretos com relação à obra. O diretor Larry Clark realizou uma espécie de etnografia básica ao acompanhar os jovens andando de skate na praça por muitas semanas, ganhando sua confiança e construindo um relacionamento íntimo com eles, a fim de aprender sobre seus hábitos e costumes. Então, trata-se de uma ficção alucinógena ou com base em uma realidade concreta? O ator Justin Pierce, cinco anos antes do filme, após o divórcio dos pais, abandonou a escola e passou a conviver com outros skatistas no porão de uma casa. Um dia, foi preso por posse de maconha e heroína, encontradas em suas calças após uma revista policial. Os resultados na audiência foram considerados inconclusivos e ele foi liberado. Em 2000[4], Pierce cometeu suicídio enforcando-se num quarto do Hotel Bellagio, em Las Vegas, e seu corpo apresentava uso de substâncias ilícitas. Em 2006, outro ator do longa, Harold Hunter, foi encontrado morto dentro de casa, vítima de overdose de cocaína[5].
Como vimos, seu lançamento causou certo pânico moral entre os adultos, com boa parte do público direcionando suas críticas e sua ira ao modo como os jovens foram representados. Será que o choque deveu-se meramente à simples observação das cenas porno-eróticas desenrolando-se diante do público ou possivelmente, por causa de um reconhecimento, de uma constatação de que seus fotogramas continham facetas e elementos dessa realidade? A trama é desconfortável, de fato, principalmente pela performance espetacular de Leo Fitzpatrick, quem passamos a odiar nos primeiros segundos. Além disso, as cenas de violência na praça ou de misoginia repetitiva e escancarada incrementam esses sentimentos. O resultado foi uma censura mínima de 17 anos imposta pela MPAA que deixou de fora justamente aqueles para quem o filme se dirige (e impediria a entrada até mesmo de membros do elenco). Os adultos, chocados, julgaram as narrativas indecentes e inconvenientes para os próprios agentes responsáveis pela sua existência na tela e sua posterior identificação por parte deles.
O cinema hollywoodiano já produzia filmes sobre a juventude desde meados do pós-guerra. Entre dramas, musicais e comédias podia-se acompanhar certos medos, inseguranças, dissabores e recorrentes sensações de não pertencimento no mundo. Os jovens tinham aspirações na vida, mas estas eram frequentemente atrapalhadas por pensamentos tóxicos, degradantes e danosos vistos como naturais desse período. Geralmente, no final, eles tendiam a transpor essas barreiras e alcançar seus finais felizes, remediando todos os problemas. Os desvios e a delinquência nas telas eram, portanto, simples e rapidamente sanados por uma concreta exclusão do indivíduo de seu espaço social; pela famosa detenção do colégio como medida disciplinar e reeducativa; pela impotente obrigatoriedade, através de medidas judiciais, a se tratar em clínicas especializadas; ou, em casos mais severos, pela morte de si ou de um companheiro também de comportamento desviante, representando a extirpação desse gene daquele corpo ou daquele círculo social. Em todos os casos, a solução sempre nos pareceu acessível demais. A ideia que recebíamos é de que a sociedade possuía todas as ferramentas para cuidar dos jovens e, principalmente, dos desvios e da delinquência juvenil. Se havia um problema, é porque não eram corretamente empregadas (ou eram de forma leniente).
Contudo, há algo de novo no mundo juvenil apresentado em Kids no meio dos anos 90 (e que perdura até os tempos atuais). O diretor Larry Clark e o roteirista Harmony Korine nos apresentam jovens de classe média e baixa da cidade de Nova York em uma década que vive o pânico da transmissão do HIV. Aliás, sustentamos que sem essa questão da AIDS, materializada pelo teste positivo de Jenny, aliás o único componente de um plot efetivamente dramático, a obra poderia ser livremente considerada um docudrama observativo sobre a vida de jovens normais da grande metrópole. O próprio ator, Leo Fitzpatrick, revela que “fora o sexo, [o filme] descrevia o que estava acontecendo na minha vida. Não foi uma loucura para mim[6]“. Esse ingrediente do sexo realizado sem preservativos e sem noção de culpa incrementou a polêmica, assustando os pais. Afinal, o mundo inconfundível[7] do longa se passa aqui, na cidade onde vivem, onde trabalham, onde esperam ser bem sucedidos na criação de seus filhos.
Não obstante, ficamos sem saber seus objetivos de vida, suas aspirações profissionais, seus desejos concretos, suas vontades particulares ou suas críticas sobre o status quo (se é que eles, de fato, existiam em suas mentes). O filme também não aborda aspectos econômicos, sociais e/ou políticos de maneira direta[8]. Não é essa a proposta. O que observamos, então, são necessidades espontâneas, ímpetos imaturos e impulsos biológicos. Até natural para grupos ignorados e deixados à própria sorte numa das maiores metrópoles do mundo e com tantas disponibilidades ilícitas ao seu alcance. Quando Casper, nitidamente embriagado no final, pergunta o que aconteceu, Larry Clark lhe responde com uma narrativa linear e substancial de um dia aleatório e comum na vida deles. A resposta do diretor é, portanto, visceral e terráquea, destruidora de esperanças, distanciando-nos da nostalgia de uma época hollywoodiana extraterrestre na qual as maiores angústias dos adolescentes nas telas eram um coração partido, a morte de um ente querido ou a falta de habilidades sociais para se encaixar nos grupos escolares.
O nome do filme é, obviamente, irônico. Os personagens estão longe de serem “crianças”, apesar de estarem também equidistante de uma vida adulta de maturidade. Se há uma mensagem por detrás de sua narrativa, esta é claramente a do sexo seguro, pois sendo impossível coibir essas práticas da juventude, ao menos pode-se evitar maiores problemas. No entanto, os personagens estão pouco ou nada preocupados com isso, só querem se divertir (logo no início, Telly revela um dos motivos de sua preferência pelas virgens: “elas não têm doenças”). Aliás, Telly parece sentir mais prazer ao se gabar para o amigo do que propriamente realizar o ato sexual. Ademais, há uma interessante passagem no final. Quando Jenny chega à festa e finalmente descobre o paradeiro de Telly, ela se aproxima do quarto e o vê fazendo sexo com Diane na cama. Visivelmente drogada e exausta, ela se retira, fecha a porta do quarto e vai se sentar no sofá para descansar. A personagem desistiu de sua missão justamente quando estava prestes a cumpri-la e essa cena possui múltiplas leituras interessantes: Jenny poderia ter se sentido impotente por chegar tarde demais; ou apesar da vontade de revelar o resultado do teste, pode ter julgado que de nada adiantaria; ou simplesmente estava drogada demais para estabelecer alguma conversa racional (a droga também atua impedindo que os jovens enfrentem seus problemas e tentem fazer a coisa certa de algum modo).
Sobre a dupla principal, Telly e Casper caminham pela cidade como se fossem donos de tudo à sua volta. Eles entram em uma loja de conveniência e roubam bebida alcoólica, urinam pelas ruas, invadem uma propriedade alheia para tomar banho de piscina, etc., tudo com uma assustadora naturalidade. Não há nada que não possam fazer se assim o desejarem. O mundo adulto lhes parece algo distante, incoerente e fora de sintonia com seus ideais. Aliás, a câmera procura seguir esse comportamento e retira do quadro todos aqueles que não conseguem “compreendê-los”. Os únicos adultos em evidência e, mesmo assim, por meros segundos, são a médica que revela o resultado do teste, o cantor na estação de metrô, o homem sem as duas pernas pedindo trocado dentro do trem (seu corpo está sob um skate), o vendedor da loja de conveniência, a mãe de Telly, de quem ele rouba dinheiro, e o motorista de táxi[9]. Curiosamente, cada um deles representa uma esfera da vida social que orbita os jovens e os relembra de suas responsabilidades, como a saúde, a arte, a pobreza, o trabalho e a família.
O lazer percorre todas as cenas, impulsionando a trama. Os personagens procuram coisas divertidas para se fazer durante os dias nas férias, como andar de skate no parque, tomar banho de piscina à noite, comprar e fumar maconha, frequentar casas noturnas e fazer sexo. O grupo vaga pela cidade como espectros atrás da satisfação de suas necessidades humanas básicas. A vida não lhes deu nada que possam se interessar além daquilo que já procuram incessantemente. A cena de espancamento de um homem negro no parque poderia levantar importantes questões, mas há negros no grupo de ataque, seus integrantes são de todas as raças. A cada nova situação ou desvio, reforçam suas identidades e estruturam suas percepções sobre a vida, principalmente depois de uma conjunta aprovação de seus pares.
O filme, portanto, dá uma espécie de aval e “autoriza” o desvio como um aspecto intrínseco da juventude, algo do qual ela não parece conseguir se desvencilhar. Ressaltamos que, obviamente, muitos adolescentes não são como os personagens do longa. E nem precisam ser. Os próprios atores, em sua maioria, não eram[10]. A potência do filme jaz na capacidade de demonstrar a força e a fragilidade desses jovens em meio aos ritos de passagem durante um período conturbado de muitos conflitos internos e externos (e também financeiros), de questionamentos com relação às suas existências e da falta de respostas para suas perguntas. Se o filme serviu como um enorme espelho através do qual os jovens possam observar um pouco de si nos personagens e com isso aprender, compreender e ressignificar certas práticas e/ou atividades, a missão então foi devidamente cumprida.
Hoje em dia, o filme perdeu seu potencial de choque, embora suas formas simbólicas estejam longe de ultrapassadas. Larry Clark lançou O Cheiro da Gente, em 2014, sobre um grupo de skatistas autodestrutivos em Paris. O resultado? Nenhum barulho, nenhuma comoção, nenhum conflito. Os ecos de Kids não causam mais a mesma polêmica ou suscitam a ira e a desaprovação em igual intensidade. O outrora apelido de “alerta para o mundo moderno”, algo novo materializado como uma expressão visceral da realidade adolescente, sofreu uma mutação e transformou-se em mera banalidade cotidiana. Os problemas atuais em torno das drogas, da violência, das doenças venéreas, da prostituição, do estupro e do álcool demonstram que o filme nada tem de velho, mas como atingiram patamares muito mais amplos e danosos para a sociedade, talvez hoje em dia consideraríamos a narrativa de Kids realmente como um filme infantil.
NOTAS:
[1] Todas as informações foram retiradas do site do IMDB. Disponível em: https://imdb.to/2GXv8N6
[2] Disponível em: http://bit.ly/33sITg2
[3] Disponível em: https://wapo.st/2OPwcZx
[4] Disponível em: http://bit.ly/2GZJxs2
[5] Disponível em: http://bit.ly/2TnTeVX
[6] Disponível em: http://bit.ly/33sITg2
[7] Mundo inconfundível é um termo para designar o mundo imaginado, elaborado e descrito pelo escritor. Um mundo, portanto, inconfundível, porque único e reunido em suas características, aspectos, elementos, qualidades e personagens únicos.
[8] Há apenas uma cena, quando Telly chega em casa para pegar mais dinheiro e tomar banho (leia-se, borrifar água sobre o tórax encharcado de suor). Ele vê a mãe na sala, cuidando do bebê e ela avisa que a situação deles está bastante difícil e não tem dinheiro algum. Fora esse momento e a enorme casa onde acontece a festa no final (os pais do garoto devem ser muito ricos), não há outras indicações.
[9] Este último surge quando Jenny pega um táxi para ir ao encontro de Telly na praça dos skatistas. A conversa com o motorista é estranha, pois passa uma ideia de mensagem divina, algo como “apesar de tudo, as coisas vão dar certo, não se preocupe”, o que é uma ideia até contrária ao filme.
[10] Uma garota que não quis se identificar para a matéria tinha 14 anos quando começou a andar de skate com Alex Corporan, Justin Pierce, Harold Hunter, Hamilton Harris, Gio Estevez, Mel and Loki. Segundo ela, “a verdadeira história de Kids é sobre um bando de crianças que cresceram com literalmente nada. (…) Nós poderíamos ter sido de diferentes áreas e diferentes raças, mas nós viemos da mesma faixa de renda. Aprendemos a cuidar uns dos outros numa época que era um dos períodos mais difíceis da história de Nova York. (…) O filme retrata a segregação entre garotas e garotos, o que não era realidade. O ponto principal [do filme] – todo o sexo com virgens e coisas misóginas – não era necessariamente como vivíamos nossas vidas”. Disponível em: http://bit.ly/2MRMjDs
Comparando esse filme com a realidade, os jovens de hoje agem de forma parecida, eu faço parte desse nicho, muita maconha, bebida, alucinógenos, cogumelos, LSD, ecstasy tem de tudo, porém a grande maioria nunca pensou em sair disso e ir atrás de cocaína ou crack, a gente pode meter o loco, mas temos uma mínima noção do limite, apesar de tudo apenas a relação ao sexo mudou a maioria se cuida.