
“Tome cuidado com o que desejas, pois poderás conseguir”. A expressão é sábia e parece cafona, mas está corretíssima. De repente, um dia, você acorda e descobre que tudo aquilo que desejava está prestes a se realizar. Mas você precisa tomar uma decisão. Um certo medo invade o coração, pois não há vivalma nesse mundo que não sinta medo do desconhecido, do inexplorado, do inexplicável. Já inventaram inúmeros nomes para o que sinto agora, e medo ou pavor seriam, no máximo, apelidos. Eu costumava ser tudo e nada ao mesmo tempo, mas ninguém me ensinou a ser somente tudo, sem uma pitada de nada para me apoiar e reclamar à vontade. Então o que devo fazer?
Por um lado, há a bela sensação de atravessar barreiras e fronteiras intransponíveis para o humano comum; por outro, o sabor amargo, residual da luta antiga e desgastante contra um comportamento deplorável e decadente. Ao olhar para meus olhos em frente ao espelho vejo incontáveis possibilidades de continuar desejando de um ponto seguro, sem que precise me definir. E este sentimento me conforta. Sempre tomei decisões incompreensíveis, cujos sentidos tampouco se enquadram em algum tipo de pensamento racional e plausível, pois ninguém me ensinou a tomar decisões baseadas em algo concreto. Então o que devo fazer?
De repente, posso continuar acreditando na minha sorte. Ela nunca falhou, pois quando tenho azar, me sustento na doce ilusão de que “era para ser assim”. Então, entregar-me-ei novamente às cartas e elas decidirão por mim. Vencendo ou perdendo nesse jogo, mantenho aquilo que sempre me foi fiel, a minha essência mais profunda, a possibilidade de negar a razão com a desculpa de que ela não faria diferença, de culpar os outros e sair ileso, inocente. Apenas dessa forma serei absoluto, pois ninguém me ensinou que para ser completo e integral, eu precisava ceder um pedaço de mim. Então o que devo fazer?
Bem, a verdade é que desejei sim, desejei mesmo, mas nunca desejei que me afetasse dessa maneira ou desejei ter de decidir o que fazer quando o desejar se tornasse o desfrutar. E olhando para a minha situação agora, preferiria não ter chegado onde cheguei. Mas, calma, não vou me desesperar. Ainda é possível desistir, sendo esta talvez a decisão mais viável e segura. Nenhuma pessoa ficaria sabendo, pois ninguém me ensinou a revelar as minhas emoções e demonstrar meu afeto pelas coisas que desejo. Então, já sei o que devo fazer! Em vez de aceitar meu desejo e arcar com as consequências não desejadas, desistirei de obtê-lo pelo imenso prazer de desejar sem realizar, de desejar sem o dissabor de não desfrutá-lo como sempre desejei…
(Texto escrito em meados de 2008)