O Velho da Praça

Estava eu sentado num banco da praça, relaxando e pensando na vida, quando um homem velho sentou-se ao meu lado. A princípio, não percebi que ele estava inquieto e o ignorei. Passados alguns minutos, ele se virou e puxou assunto comigo.

— O que tanto te aflige, rapaz?
— Nada… Estou muito bem. O senhor é quem, pelo visto, está meio inquieto.
— Sim, estou ansioso para falar com você. Por que você não consegue deixar para trás o que tanto te aflige?
— Já te disse que nada está me afligindo.
— Ah, não? Então por que passa horas e horas em devaneios aqui no banco desta praça? Quase todos os dias eu o vejo por aqui.
— Porque eu gostaria de encontrar uma forma de decidir sobre algo que está me incomodando.
— E você acha que conseguirá estando sentado aqui?
— Claro. É preciso pensar em todas as opções, fazer cálculos, previsões, planificar as ações, criar estratégias, estabelecer os caminhos, traçar rotas e tomar a decisão no final.
— E você acha que desse modo vai conseguir o que deseja?
— Não sei. Mas pelo menos vou saber que não tomei uma atitude precipitada. Principalmente, se eu falhar.
— Este me parece ser o problema. Ora, se você não sabe como fazer algo, faça-o da maneira que achar correta. De acordo com o resultado, saberá se acertou ou errou e o que deve fazer para mudá-lo novamente. Se precisar mudar, não concorda?
— Você não entendeu. Não posso errar. Só tenho uma chance. Se eu desperdiçar, já era.
— E buscando seus pensamentos, dia após dia, você chegará a uma conclusão da qual terá a máxima certeza de que não errará?
— Com certeza. Ou, no mínimo, terei feito da forma em que eu possuiria a maior chance de ser bem-sucedido. Além disso, como não optar não é uma opção para mim, preciso garantir um estado de ânimo condizente com uma possível falha. É questão de sobrevivência psicológica.
— Quanto tempo você tem para resolver isso?
— Não há limite de tempo, por isso quero tomar a decisão certa.
— Tudo bem, garoto. Mas vou te dar um último conselho: com o tempo, cada ano vai passar mais rápido. As suas escolhas e decisões serão responsáveis por desenhar o seu trajeto enquanto você caminha. Dessa maneira, você saberá que está sempre rumando para frente, evoluindo como ser humano. E a parte mais intrigante é a de que quanto mais você cair, mais saberá evitar as quedas, então chegue até a desejar algumas pelo percurso, principalmente nas situações não tão graves. Vai por mim.
— Todo mundo sabe disso, velho. Obrigado pela revelação óbvia!
— Sem problemas. Espero ter ajudado. Eu também já fui jovem, sei o que você está passan…
— Adeus!

E foi assim que o velho se levantou e seguiu seu caminho, sem olhar para trás. “Que velho maluco”, pensei. Desde aquele dia, continuo indo à praça e fico divagando, viajando pelos meus pensamentos, ávido em achar um caminho plausível, algo que possa minimamente acalentar o meu coração em caso de falha. Para que cair e me esborrachar se posso prever os resultados e aprender sem cicatrizes? É tolice se entregar à própria sorte e viver em meio às rolagens de dados. Minha decisão precisa ser tomada com base em árdua pesquisa e ponderação. Até hoje estou invicto, todas as minhas escolhas geraram consequências positivas, eu nunca falhei. Mas… Se bem que… Pensando aqui, se eu já tivesse caído, saberia lidar melhor com isso?

A decisão que eu preciso tomar é a que mais exige experiência e sabedoria em toda a minha vida. Quantas quedas seriam necessárias para saber agora o resultado mais provável? Certa vez, ouvi dizer que gravamos com muito mais intensidade na memória os eventos ruins, os erros, as vergonhas, os medos. Isto porque a mente irá sempre ativar esses momentos como instinto de sobrevivência. Será por isso que todo o meu conhecimento é inútil? Porque ele advém de vitórias vazias que nada me ensinaram, de comemorações já esquecidas e triunfos de causas abstraídas? Que droga, meus planos e estratégias não servem de nada diante desta nova decisão. Não consigo mais planejar, tampouco encontrar uma maneira de sair dessa. Não há brechas, minha mente está fechada. Eu não posso errar, um passo em falso e acabou para mim. Preciso do plano perfeito! Mas há dias sento no banco da praça e tudo que consigo pensar é em como eu deveria ter errado mais, caído mais, desabado em prantos e sentido o mais puro vácuo da derrota. Aí, eu talvez tivesse aprendido a decidir… Meu deus, onde está você, velho?

(Texto escrito em meados de 2012)

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