Sob Pressão (2017): O Penoso Diagnóstico da Saúde Pública Brasileira

O seriado Sob Pressão está no ar desde 25 de julho de 2017 pela emissora Rede Globo em co-produção com a Conspiração Filmes. No ano de 2021, levou para as telas a sua quarta temporada[1]. A obra foi inspirada no livro Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro (2016), do médico cirurgião Márcio Maranhão, e foi baseada no filme de 2016 e tem a autoria de Jorge Furtado, Luiz Noronha, Claudio Torres e Renato Fagundes. Os nove episódios de sua primeira temporada retratam estórias inspiradas em casos reais e foram escritos por Lucas Paraizo e Jorge Furtado com a colaboração de Antonio Prata e Márcio Alemão. A direção-geral é de Andrucha Waddington. A trama é sobre os desafios enfrentados por uma equipe de médicos de um hospital público em Cascadura, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. O casal protagonista formado pelo cirurgião-chefe, Dr. Evandro (Júlio Andrade), e a Drª. Carolina (Marjorie Estiano), cirurgiã vascular, atua em meio a diversos problemas de infraestrutura e o descaso com a área da saúde, além da interminável entrada de pacientes na emergência[2].

O seriado propõe uma estética realista, com uma fotografia que gera a impressão dos telespectadores estarem na recepção do hospital ou vagando por suas salas e corredores como um curioso observador. Não há intenção de retratá-los com exagerada bravura e os planos secos e frios confirmam essa proposta. A direção entregou um produto emocionante, conduzindo os planos com extrema segurança. A sensação transmitida é de constante tensão pelos dramas vivenciados pelos pacientes e médicos, principalmente nos momentos em que eles se sentem impotentes diante da péssima infraestrutura ou quando precisam ultrapassar os limites da profissão para salvar mais vidas. Julio Andrade e Marjorie Estiano estão impecáveis em seus papeis, como atestam os diversos prêmios que a dupla conquistou. A química entre ambos foi minuciosamente calibrada por um texto preciso que explora com qualidade as suas diferentes facetas como profissionais, indivíduos e par romântico. Há de se comentar também a seleção do elenco para muitos dos pacientes, cujos atores e atrizes apresentaram um enorme talento.

A estrutura dramática se debruça sobre o hospital como protagonista. É ele que conduz as estórias, chegadas e saídas, dos dramas vivenciados pelos pacientes e pela equipe médica. O gênero é comum e famoso em países como os EUA e, por isso, tem muito apelo comercial e de público. Suas bases seguem o mesmo molde e alicerçam uma configuração narrativa capaz de ser repetida indefinidamente. Distribuído em uma média de três casos por episódio, as angústias e sofrimentos não dão tempo para os telespectadores respirarem e é esta a sua intenção e maior conquista. Talvez seja por isso que o seriado chegou à sua quarta temporada com o fôlego intacto e pronta para receber mais uma remessa de estórias no seu quinto ano. Ademais, no meio das adversidades, a equipe médica faz o possível para lidar com seus problemas pessoais e conjugais e os traumas do passado ainda mal resolvidos, enquanto lutam para manter os pacientes vivos.

A trama explora bem o drama dos pacientes e das pessoas que aguardam por notícias positivas. Os arcos da equipe médica são avançados em plena sintonia com o desenvolvimento e a evolução de suas propostas épicas, desvelando pouco a pouco os segredos que há entre eles. Não há romantização do trabalho médico, a equipe comete enganos, erra e acerta, duvida das próprias capacidades e mistura o lado profissional com o pessoal, na tentativa de superar o descaso com a saúde no país. Quando isso ocorre, o hospital surge também como opositor, um personagem que age como obstáculo para os objetivos dos médicos e como a energia brutal de decisão acerca do destino de todos. Além disso, no centro cirúrgico não há espaço frequente para momentos cômicos, por isso, vale ressaltar a destreza do roteiro em desenvolver a relação amorosa do anestesista Amir com suas duas namoradas e as situações engraçadas que irrompem de suas tentativas de não ser descoberto. As cenas manifestam-se quase sempre em paralelo com situações de extrema tensão, trazendo alívio e impulsionando a curiosidade do público.

Entre as questões secundárias, vale ressaltar o ponto positivo com que o roteiro utiliza estratégias educativas para informar o público. Em meio aos casos, surgem atitudes e conselhos para ensinar-lhe como lidar com as situações e os seus possíveis desdobramentos. Entre os mais notáveis, estão o de abuso sexual por parentes na estória da adolescente que se auto defenestrou quando vira seu pai entrar no quarto; o comovente segredo da médica Carolina, cuja automutilação é fruto de ter sido abusada por seu pai desde criança e a sua tentativa de suicídio; o rapaz que contraíra o vírus HIV sem saber e, por sorte, não passara para a esposa e o filho; uma mãe tenta de todas as formas impedir o desligamento das máquinas que mantêm o seu filho em coma, mas descobre que ele é doador de órgãos; uma mulher chega escoriada, vítima de violência doméstica e Evandro pergunta se ela conhece a lei Maria da Penha, entre outros. Para complementar, cartelas exibidas no final dos episódios ressaltam o imprescindível alerta social e de saúde pública, geralmente, referindo-se a um caso esmiuçado no dia.

Diante deste panorama, a rotina é a de um hospital público em um bairro pobre do Rio de Janeiro, logo, a maioria dos pacientes atendidos são, por óbvio, das classes mais baixas e incapazes de obter condições melhores para si mesmos ou planos de saúde. Há alguns casos de enfermos e vítimas de acidente de classes mais altas, levados até lá por questões de emergência. Porém, no geral, o seriado manteve as desigualdades do lado de fora de suas portas (no ambiente hospitalar, todos são tratados da mesma forma e não há exemplos de casos em que a pobreza tenha tido participação decisiva nas estórias). O foco é o de que acima da vontade de curar as pessoas e vê-las em um estado melhor, encontra-se a batalha da equipe médica contra as péssimas condições de trabalho. É neste eixo organizacional que ela se posicionará quase inteiramente. Pela exposição das dificuldades na área da saúde, o seriado foca na crítica de um jogo capitalista mergulhado na corrupção, cuja conivência dos médicos é tida como necessidade intrínseca. No final, há uma singela comparação com a rede privada de saúde, mas sem teor crítico.

No eixo organizacional, um aspecto basilar surge da evidente ausência do poder público: os médicos e funcionários do hospital estão à deriva no comando de uma embarcação “prestes a afundar”. Na sala de comando, Samuel, o diretor, é um típico homem institucionalizado devido aos anos de trabalho. Tal qual um autêntico burocrata que compreendeu os limites de sua profissão é sobre o seu personagem que se faz a ponte com os efeitos da corrupção. Seja pela compra de um tomógrafo e cilindros de oxigênio superfaturados ou pelo desligamento das máquinas que mantém um paciente em coma induzido, seu comportamento trivial diante de situações polêmicas ilumina os mecanismos da acomodação, do senso de inevitabilidade e a resignação perante a negligência do Estado. Por outro lado, a conivência que eles têm de se submeter para conseguir o mínimo de condições de trabalho é um dos efeitos do sistema decadente no qual eles se veem obrigados a participar. Assim, longe de expandir a crítica para um diagnóstico mais preciso deste corrupto paciente estatal, Samuel e sua equipe médica nada podem fazer a não ser colocá-lo em coma e torcer pela sua recuperação.

A representação do ambiente hospitalar apresenta forte semelhança com o senso comum. Em nosso país, há um problema endêmico em diversas esferas e a saúde chama mais a atenção pelos seus efeitos concretos e imediatos. As pessoas morrem por falta dos equipamentos, as filas são quilométricas, pessoas chegam e vão embora sem serem atendidas. Desta forma, o seriado entende que a corrupção endêmica é a causadora principal dos problemas, mas não discute os elementos que os tornam reais, pois não é a sua proposta. Por isso a frieza na abordagem do descaso não tem a intenção de criticar as suas razões de existência. Inclusive, o Dr. Evandro chega a render-se à corrupção[3], quando aceita o dinheiro oferecido por um paciente (para ter um quarto privativo) apenas para gastá-lo com remédios e num presente para um senhor em estado terminal. Em vez de obter benefícios para si, ele utiliza as regras do sistema para suavizar as suas responsabilidades.

A química entre o Dr. Evandro e a Drª Carolina desvela relevantes traços de suas consciências. Os dois são pessoas completamente diferentes, opostas no modo de ver a realidade e de conduzir a profissão. Contudo, como duas peças que, em separado, não conseguem lidar com os reveses da vida, juntos, eles geram o encaixe perfeito. Evandro é cético e puramente racional na profissão, defendendo o conhecimento da medicina acima de qualquer crença religiosa. Ele não chega a demonstrar consciência de classe, mas um anseio voltado para o amor ao próximo e de ajuda aos necessitados. Na vida pessoal, é um perfeito idealista[4], acredita que as coisas podem mudar somente pela transformação das ideias e por isso acha tão difícil se desvencilhar do fantasma da ex-mulher. Por um prisma reverso, Carolina é emocional no trabalho, acredita no poder da fé e da religião e comove-se com os enfermos em estado terminal. No âmbito privado, os traumas de sua infância e a automutilação tornaram-na uma mulher rígida no que tange a abrir o seu coração. Sob certas descargas emocionais, como o imprevisto de ver o seu vídeo cair na internet, ela demonstra controle da situação e grande habilidade racional. Diante disso, onde ele é cético, ela é sonhadora; onde ela é sensata, ele é ingênuo. E este poderoso contraste avança para camadas mais profundas: Evandro toma remédios para enfrentar a realidade e seguir com as suas responsabilidades enquanto Carolina se automutila para fugir da mesma realidade, da qual encontra-se exausta a ponto de tentar o suicídio; se suas cicatrizes encontram-se marcadas na carne, as dele estão incrustadas na alma e na saudade pela esposa morta.

Suas “conivências” com a corrupção resumem-se a uma cena que cada um deles tem com o diretor do hospital. Evandro fica revoltado ao saber que o Estado está pagando por um tomógrafo de 32 canais, mas recebendo um de 16 pelo dobro do preço. Ele chega a perguntar se Samuel estaria “levando um por fora”, mas é duramente repreendido. Ao ser convencido de que sem o aparelho mais pessoas iriam morrer, ele assina o documento, xingando o país. Carolina aborda Samuel com um documento em mãos, dizendo que o hospital está pagando quinze reais pelo metro cúbico de oxigênio, quando o preço de mercado é de três reais. Samuel responde que é assim que funciona no Brasil e mesmo sob protesto da médica de que sendo coniventes, as coisas nunca vão mudar, ele ressalta que crime é deixar as pessoas morrerem. A relação deles com as implicações que a corrupção traz para seu local de trabalho levantam assuntos relevantes para o público, que passa a observar seus efeitos viscerais na saúde a partir de outra perspectiva. No entanto, pela soma dos fatores reunidos, a posição ingênua dos personagens e a “necessária conivência”, expressam, mesmo com as melhores intenções, a inevitabilidade de uma corrupção como fruto estrito da má política, desconsiderando os elementos responsáveis pelos abismos sociais e os traços positivos da saúde pública frente às investidas privatizantes.

Nesta perspectiva, curiosamente, esses imbróglios estruturais do hospital parecem adquirir mais proeminência e se tornar piores conforme os episódios avançam. De início, nota-se a falta de dois drenos para uma cirurgia, fazendo com que Evandro utilize uma mangueira de jardim para drenar a paciente; depois, tem-se a queda de luz, as goteiras na sala cirúrgica, a falta de um tomógrafo, a falta de cola biológica (para um paciente de alto risco de morte) e ausência de bolsas de sangue reservas, culminando no caos do descaso total no último episódio, quando Evandro teve de interromper todos os atendimentos, salvo os casos mais graves. Propositalmente ou não, é sob este contraste que o seriado desenvolve a sequência em que ele salva um jovem de um ataque de epilepsia no mercado e é apresentado ao seu pai, um empreendedor do ramo da saúde privada. Em seguida, a Evandro é oferecida uma vaga sem que se deixe de realçar as qualidades do estabelecimento: monitoração por vídeo, salas equipadas com aparelhos de última geração, etc. O médico acaba aceitando e logo no primeiro dia, termina a cirurgia com enorme sucesso, apesar de não parecer estar se sentindo bem, aquele não é o seu local[5]. Ao receber uma ligação de Carolina para lhe avisar que ocorrera um acidente de trem, na cena seguinte ele surge caminhando pelo corredor, abandonando o lugar.

Uma vez que os reais motivos das desigualdades não adentram as portas do hospital-protagonista, o que esse contraste significa? Tomando a conjunção de todos os elementos, é perfeitamente aceitável que Evandro retorne ao seu antigo hospital, abandonando a rede privada. Lá é seu lugar, é onde se sente melhor, mais completo, em meio aos seus pares e os necessitados, além dos laços emotivos e fraternais com a equipe médica comandada por Samuel. Ele mesmo já dissera que havia recebido propostas e jamais tinha aceitado. O retorno ao hospital público, uma decisão louvável diante dos desafios, chancela a sua crença na melhoria da saúde pública e reúne três convicções em uma única escolha: a de que é certo, bom e possível lutar para uma transformação deste quadro. Entretanto, a forma de se lutar é que ofusca as relações de dominação e opressão.

Baseado nisso, não é que Evandro seja um revolucionário, mas ele deseja uma mudança estrutural, assim como a maioria absoluta dos brasileiros. No fundo, ele tem a compreensão de que a existência da rede privada implica diretamente na falência da rede pública, pois o sucateamento da segunda é um projeto deliberado para que a primeira consiga sobreviver e lucrar. Ele não demonstra abertamente a sua posição[6], mas pelas ações, ele acredita que por meio de pequenas ajudas e dos esforços diários de cada pessoa, buscando melhorias para si e para os outros, mudanças expressivas poderiam ocorrer. Assim, esta é a armadilha ideológica que desnuda, em nível situacional, uma das posições políticas do seriado: como se a corrupção pudesse magicamente desaparecer se todos se tornassem honestos. Dito de outra maneira, embora os telespectadores fiquem comovidos com suas nobres atitudes e o seu caráter e torçam para que existam mais “Evandros” nos hospitais públicos, é uma visão ingênua aceitar que os problemas da área da saúde podem ser sanados somente pelas ações individuais, ignorando-se suas raízes sistêmicas.

Para concluir, o seriado apresenta alta qualidade dramática, uma direção impecável e uma trama emocionante, assentada em um gênero bastante atrativo para o público. Sob um viés crítico da saúde pública, as estórias comoventes que preenchem os episódios têm uma função social positiva e benéfica. Por outro lado, observou-se que os problemas estruturais surgem como efeitos de uma corrupção endêmica que atinge as camadas mais profundas da sociedade. O capitalismo é tratado como um jogo perverso que gera inevitáveis graus de pobreza, porém, as ideias que acompanham a sua narrativa tendem a frisar um defeito apenas em suas regras. Além disso, as jogadas em torno das ações de Evandro e Carolina sugerem a crença de que as relações capitalistas poderiam ser “consertadas” por meio de indivíduos cientes das necessidades do próximo. Por fim, as desigualdades sociais não foram abordadas diretamente, a sua presença se deu pelos indivíduos pobres e enfermos que enfrentam as péssimas condições do hospital como se elas fossem meras decorrências das decisões estatais e da má política.

[1] A quinta temporada foi ao ar em junho de 2022. Disponível em: http://glo.bo/3BGRNd3.

[2] A trama e as curiosidades estão no Memória Globo, disponível em: http://glo.bo/3BGhcUg.

[3] Considerei apenas as situações em que ele “se corrompe” sem necessidade. Logo, a cena em que ele assina o documento de um tomógrafo superfaturado não dependia apenas de sua moralidade.

[4] Um interessante atributo deste simbolismo é o personagem gostar de estudar Nefologia (o estudo das nuvens), para onde supostamente “ergue sua cabeça” em seus momentos de folga.

[5] Uma paciente reclama que o ar condicionado de seu quarto privativo havia quebrado e ela sentira muito calor, inclusive, sendo grossa com o médico quando ele lhe fez uma pergunta sobre a dor na barriga. É evidente a disparidade nas condições de atendimento e tratamento dos pacientes neste hospital particular, mas a opção por uma cena que uma paciente chega a reclamar de algo tão fútil pode ser considerada algo proposital para ampliar ainda mais as diferenças.

[6] Parto da noção de que uma crítica em nível sistêmico, expondo as reais razões pelo descaso e caos da  saúde pública seria contraproducente em relação à visão dominante.

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